Deveriam ensinar vaidade às meninas desde cedo, ensinar a importância de serem inteligentes, para não sofrerem mais tarde, quando, talvez, for tarde demais.
Eu sou um monstro, uma visão do inferno. Nunca estive tão gorda quanto hoje. Eu que gostava tanto de minhas pernas, mal posso vê-las agora, tomadas por horrendas estrias vermelhas – que aparecem também no quadril e seios. Por que comecei com isso? Queria nunca mais sair desse quarto, queria que nunca mais amanhecesse. Feia e burra. Ser nada é muito para mim. Sou menos que nada. Não gosto de pessoas, com exceção do “E”.
Esse falta de vontade... Sonolência durante o dia e à noite: insônia.
No sábado não comi nada. Hoje não aguentei. Fui ao mercado. Quebrar NF já é horrível, encontrar alguém que não queria nesse dia, foi ainda pior. Quando voltava do mercado – uma baleia de regata branca e calça azul (ambos justos, afinal, eu engordei ainda mais), carregando sacolas de veneno e com o cabelo meio rebelde – vi um cara que conheci num chat. Ele passou por mim e olhei para ele que retribuiu, por isso acho que era ele. Não poderia ter me visto em pior dia. (Mas será que era ele mesmo?)
Às vezes fico me iludindo achando que o futuro pode ser bom. Imagino-me num escritório, uma grande líder, uma profissional de sucesso. Outras vezes, usando um vestido vermelho, curto, lindo, e saindo com um cara incrível que diz: “Feitos um pro outro, feitos pra durar...”. Então eu continuo: “Uma luz que não produz sombra”. E ele completa dizendo o clássico, mas verdadeiro: “Eu te amo.” Ou ainda, imagino-me mãe de um lindo guri de cinco anos, com olhos claros como os meus, ele sorrindo brincando com o cachorro.
Talvez seja mais verdadeiro me imaginar pulando de uma ponte, cortando os pulsos, tomando veneno, ou numa cama de hospital: parada cardíaca, os médicos tentando reanimar e o coração recusando-se a bater e depois, a notícia a família. Raquítica num caixão, vestindo preto e com uma rosa vermelha nas mãos, sendo velada ao som de Asleep do The Smiths. Depois do enterro, o mundo continua girando com o mesmo ritmo frenético, e jamais irá lembrar-se desta que passou sem nada deixar, no máximo pais decepcionados e o comentário de algum desconhecido: “Puxa! Tão jovem!”
16 horas atrás
