(Longo, mas diz muito sobre minha relação com o mundo)
Esse "egoísmo", eu o considero como algo absolutamente natural. O que ela (Carla) chama de egoísmo eu chamo de espírito de autopreservação. Há uma confusão de conceitos, egoísmo é outra coisa, é passar por cima dos outros para o próprio benefício, um ato egoísta é um ato consciente e proposital. Não posso aceitar que alguém não entenda isso. Se algo que eu tenha que fazer for me prejudicar eu não faço. Se o fato de eu não fazer acarretar dano a alguém eu me obrigo a fazer. Porém, se apenas deixar de fazer bem, não causando dano, deve-se analisar o que seria mais significativo: o mal que me faria ou o bem feito a outra pessoa. E o fato de eu não sair com ela não fez mal a ela, e se eu saísse não faria grande bem. Isso é autopreservação: um mínimo de amor próprio. E eu não nasci para ser Cristo.
"Eu não sou besta pra tirar onda de herói
Sou vacinado, eu sou cowboy
Cowboy fora da lei
Durango Kid só existe no gibi
E quem quiser que fique aqui
Entrar pra historia é com vocês!"
Raul Seixas - Cowboy fora da lei
Eu não exijo que pessoa alguma se sacrifique por mim. Não peço mais do que as pessoas podem dar não sofrendo quaisquer consequências. Aliás, sequer gosto de pedir. Se alguém faz algo por mim, que não cobre depois, como fez Carla. "Não que eu esteja cobrando, mas lembra..." Lembro. Lembro também de não ter pedido, pelo contrário. "Você não precisa fazer." Fala (ela) como se pelos atos por ela praticados, eu tivesse a obrigação de dar retribuição. Mas eu não tenho, não assinei contrato. As pessoas não entendem que relacionamentos não são negócios segurados por contrato, só há "boa vontade".
Sábado eu não me senti bem e não quis "cumprir com minha palavra" e ir caminhar até o shopping. Eu não pude sair de casa (é uma força maior que eu), estava me sentindo... Mal, o mesmo de todas as vezes: aquele mal estar, medo do mundo, que vem repentinamente como cantou Renato Russo "vem de repente um anjo triste perto de mim". Não que eu quisesse atenção, citando ainda Renato Russo:
"É só hoje e isso passa
Só me deixe aqui quieto
Isso passa [...]
Não me dê atenção
Mas obrigado
Por pensar em mim..."
Legião Urbana - A Via-Láctea
mas, ela foi incapaz de perguntar o que eu estava sentindo, e eu responderia "problemas complexos", ela apenas me julgou por "não cumprir a palavra", como se eu tivesse a intenção de fazê-lo, como se tivesse agido de má fé ou com descaso, por simples capricho. Eu não esperava preocupação, apenas que ela aceitasse o meu mal momento.
Apesar de prezar por minha liberdade, por vezes preciso de alguém para me sentir segura, apesar de que se não tiver, me viro bem. Sei que ela não precisa disso, minha companhia não era fundamental. Porém, ela não tem bom senso, aquele que tanto admiro. E eu não tenho paciência para explicar o que em minha opinião, e é o que eu espero, que as pessoas devem ter percepção da realidade, do que acontece a sua volta. Qualquer pessoa adulta deveria entender isso perfeitamente, saber olhar para o próximo é uma premissa para a vida em sociedade. Sei que às vezes essa falta de disposição para explicar meu ponto de vista pode dificultar o entendimento, a comunicação, mas o interesse tem que vir da pessoa. Mas, com a pouca experiência que tenho já pude perceber que as pessoas não gostam de ouvir, menos ainda quando há uma visão diferente, divergente ou quando a questão é descer do altar da sua ignorância e abrir a mente para novas ideias, para uma nova visão de mundo, mesmo que momentaneamente a fim de poder entender a visão do outro. As pessoas não gostam de problemas, de questionamentos, de discutir o porquê de pensar isso ou aquilo, não querem sair da zona de conforto, da área segura. Não gostam do trabalho de mudar a forma de pensar, isso dá trabalho. Sobre isso Bauman fala em seu livro "A arte da vida" que comecei a ler recentemente. Por falta de disposição de sair do lugar de conforto as pessoas toleram tão bem as religiões.
Acabo sempre sendo a Rainha do Gelo, a psicopata por simplesmente ser racional e compreensiva. Dizem que não me importo com coisa alguma. Um ditado tibetano diz que se um problema é grande demais, não pense nele e se ele é pequeno demais, pra quê pensar nele. Minha vida pessoal, minha relação comigo mesma já é um caos, não vejo motivos para criar outros problemas. Prefiro encarar as pessoas e situações da maneira mais leve possível, preservando-me. Outras pessoas, como a Carla, exigem que as coisas não saiam da linha, do planejamento, não se preocupam com as pessoas, com o que realmente tem valor, mas se preocupam com regras e com formalidades, veem problemas em tudo.
"Ela não está bem para sair, ela estava disposta a ir comigo, mas não está bem. Tudo bem, isso não me prejudica."
"Ela não está bem, mas que se dane, ela deu a palavra. Se ela não ir não me prejudicará, mas isso não é importante, o que importa é que ela não cumpriu a palavra, ela não fez por mal ou por descaso, como falta de consideração, mas não importa."
Ou,
"Ela não está bem. Que me importa? O mundo gira ao redor de meu umbigo, o que importa é o compromisso que ela tinha comigo. Não interessa se isso faz bem ou mal a ela."
O problema é que é automático. As pessoas não pensam no por que agem de tal ou qual forma. As ações delas são baseadas em ideias como essas acima (neste caso específico), mesmo que, e provavelmente são, ideias inconscientes. Porque vendo escritas desta forma, parece-me bem claro qual é o pensamento mais correto. As pessoas sequer se questionam com base em que ideia agem. Eu sou racional, aceito os defeitos. Ao tentar entender uma pessoa, sigo a linha de pensamento dela, escuto com os ouvidos dela, vejo o mundo sob sua ótica e então as entendo, pode ser que não concorde, e é bem provável que não, mas pelo menos sei como ela pensa, quais as razões dela, quais seus valores e então tudo bem. E com tudo isso, dizem que EU não me importo. Se importar significa despender tempo para praticar o que acabei de citar, é despir-se de si mesmo por alguns instantes para vestir, ser, a outra pessoa e entendê-la. Então, isso é ser psicopata? Se for, sou uma, e das boas.
Cada vez acho mais improvável encontrar alguém que me compreenda e me aceite. Cada vez mais acho que não sou deste mundo. Será que neste planeta, com mais de 6.000.000.000 de pessoas, não há alguém que veja o mundo e sinta o mundo e as pessoas como eu?
